segunda-feira, 25 de junho de 2012

Autocontrole


Que época bunda-mole esta nossa! Elegemos como principal virtude justo a mais medíocre
Faz mais ou menos um mês, ouvi uma mulher dizer que nunca iria a uma nutricionista gorda. Semanas depois, um amigo demonstrou preocupação ao descobrir que seu psicanalista fumava. Segundo eles, ao que parece, não pode cuidar da dieta ou da ansiedade alheia quem não controla os próprios impulsos.
Ah, que época bunda-mole a nossa! Elegemos como principal virtude justo a mais medíocre: o autocontrole. Foi-se o tempo em que o herói era aquele capaz de romper as amarras sociais, morais, históricas. De enfrentar o mundo em nome de um ideal ou de dar um piparote nas sentinelas do superego em busca de seu eu profundo.
O Super-Homem atual é o que, avaro com os prazeres, melhor consegue inserir-se nos escaninhos disponíveis do mundo. É um profissional bem-sucedido e com barriga de tanquinho. Seus feitos não serão medidos pelas marcas deixadas na história, mas pelo extrato da conta bancária e pela taxa de colesterol.
Não falo de fora. Sou filho da época, também tento enquadrar-me neste anódino "zeitgeist", de sonhos tão mirrados como as cinturas de nossas divas: sou funcionário esforçado, corro na esteira, acredito nos poderes milagrosos da quinua. Quando ponho a cabeça no travesseiro, contudo, envergonho-me e lamento a grandeza perdida.
Outrora buscávamos a nascente do Nilo, a verdade última das coisas, nos metíamos no mato sem cachorro, em mares nunca dantes navegados, nos entregávamos a amores e substâncias proibidas atrás de paraísos naturais ou artificiais. Agora, aqui estamos nós, usando 30 séculos de conhecimento acumulado para vender mais pasta de dentes, mais jornais, empenhados em descobrir como fazer dez arruelas ao custo de nove e receber uma promoção; aqui estamos nós, reinando sobre a natureza, mas comendo barrinhas de cereais.
Onde foi que nós erramos? Em que beco escuro do século 20 um Mefisto chinfrim sussurrou em nossos ouvidos que alcançaríamos a vida eterna caso abríssemos mão de nossos corações em nome do "sistema cardiovascular"? Que bizarra inversão foi essa que nos fez acreditar que a função das comidas é facilitar o trabalho do sistema digestivo, e não que a função do sistema digestivo é lidar com nossas comidas? Desculpem por ser chulo, caro leitor, mas eis a ambição de nossa triste humanidade: fazer um cocô durinho.
Veja, acho bom que haja campanhas contra o cigarro. Que o exercício físico venha se tornando um hábito mais e mais comum. A vida é curta e preciosa demais para que a atravessemos com pigarro e sem fôlego. Mas é curta e preciosa demais também para ser gasta nesta liberdade (auto) vigiada, em que o prazer e a poesia são drenados a cada dia pelos ralos da eficiência.
Não creio em nada para além do último suspiro, mas ficção por ficção, sou mais Dionísio e São Francisco  do que esse culto desvairado pela bicicleta ergométrica, o Excel e a fenilalanina.
Bichos burros! Indo do berço ao túmulo agarrados às certezas mais tacanhas e permitindo-nos o mínimo de prazer, o grande legado de nossa época será belíssimos, saudabilíssimos cadáveres -injustiça, aliás, com as minhocas, que não estão preocupadas com o colesterol nem com suas anelídeas silhuetas.


Antonio Prata

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Quieta

Na sexta-feira de temperatura polar que findou há poucos instantes, tive oportunidade de praticar uma das minhas modalidades preferidas de existir, como diz Stella Florence: Fiz silêncio.
Sim, eu passei praticamente o dia inteiro muda, ouvindo atentamente apenas o barulho assombroso que provém de mim.
Lembrei de muitas pessoas que por minha vida passaram, senti saudades de algumas que jamais retornarão. Repensei certas decisões. Dei o troco com meu silenciamento, aos desprezos que sinto vez por outra.
Faz relativamente pouco tempo que aprendi que calar é uma das maiores vinganças que um ser humano pode executar. Eni Orlandi já metralha há muito sobre o peso do silenciamento. Todavia, como bálsamo para alma, o poder da ausência dos discursos  muito lentamente foi sendo compreendido/apreendido por/em mim.
A experiência do vácuo no/do dizer só tomou forma prática em minha vida, depois que M. me ensinou a falar silenciando, mostrar escondendo e dizer não dizendo.
Provavelemente, ele jamais tenha ouvido algo sobre não-ditos, ditos, e outras nomenclaturas típicas de filósofos e analistas de discursos, porém, a forma como se movimentava por entre os vazios de palavras faladas e escritas é algo que sempre me quedou apaixonda.
Em meu estado atual, é deveras fácil lembrar das excentricidades comportamentais de M. Contudo, na época em que experimentava a lição prática de tudo aquilo que havia sofregamente lido e estudado, penei bastante. Foi uma dor necessária, que me trouxe a possibilidade de reflexão.Tudo culminando neste excerto que separei para uma gélida e medidativa sexta-feira.
Não quero mais machucar ninguém, por isso, à noite, as palavras voltaram a produzir som em mim. Abandonei minha reclusão, tomei um chá, comi biscoitos e tornei a permitir que os barulhos façam parte da sinfonia daquilo que me faz quem sou.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Ser Sansão traz sanções...

Ando me sentindo uma espécie de "Sansão de saias". De repente, cortei as madeixas e perdi meus superpoderes. Para as classes C, D, E, F, G...mulher bonita tem que ter cabelão. Fato. Daí meu atual desprestígio na hora de embarcar no coletivo, fazer a feira, pagar prestação das Casas Bahia...
Se antes eu era frequentemente observada, paquerada e até cantada, agora já não posso dizer o mesmo.
Tá certo, seria melhor se eu simplesmente tivesse escolhido dede o início o papel de 'Rapunzel Vintage'. Ocorre que não resisto aos desafios e sempre fui precocemente antagonista de mim mesma. Ademais, não tenho perfil de mulher-fruta, tampouco uso coloração articial ou descolorante . E ainda -  minha região glútea carece de atrativos, coisa que tenho de sobra pelas áreas do lobo-frontal. Mas afinal, quem quer saber?!
Deixando de lado minhas reminiscências, a verdade é que mulheres vanguardistas apavoram. Calma! - Eu sei que muitos saltarão no meu pescoço, afirmando que atitude não é questão circunscrita a um mero corte de cabelo. E não é mesmo.
Entretanto, em um mundo regido pelos moldes e modelos humanos, sobretudo as famosas modelos gaúchas que também me enchem de orgulho, arriscar no contexto e descontextualizar a própria aparência é deveras perigoso. Mas é gostoso! La Bünchen que me perdoe. Sou contra a sacralização capilar feminina.
E como de louca e de porra-louca todas nós temos um pouco, paguei para ver, como diz meu namorado. Literalmente dei minha cabeça a prêmio. A maioria do público feminino disse gostar (dando-se os devidos descontos ao cinismo, uma quase regra entre nós muiéres).
Talvez, o maior inconveniente do visual joãozinho seja o frio na nuca. Porém, isso não me é problema, visto ser possuidora de um arsenal de mantas, cachecóis, lenços e etc. Enrolo o pescoço, jamais me deixo enrolar, mesmo que os panos apenas me protejam, não quero cobrir meu EU.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Provisões de sexta-feira: Solidão + Ócio = Reflexões e Conclusões

E eis que chega a sexta-feira, esperada por tantos, por mim nem tanto (risos). Momento para descansar, pensar um pouco mais e calar (ainda que temporariamente) as ansiedades que se acumularam durante a semana.
Costumo fazer um lanche caprichado, tomar um banho mais demorado, atualizar as leituras e encerrar assistindo um filme legal.
Aproveitando os momentos que nem sempre tenho, faço análises de comportamentos e gestos meus e de outras pessoas que, de alguma forma, me chamaram atenção. Há alguns dias, tenho pensado em como nós nos machucamos com o intuito de machucar os outros. Como vivemos em função do pensamento alheio, como estamos cada vez mais asfixiados por nossa própria parvice. Observando o percurso de vida de alguns, fico chocada ao perceber que todos os sorrisos, as festas, as fotos, tudo consiste somente em  uma ânsia por provar ao mundo que Eu - Tu - Ele, enfim, Nós somos felizes.
Penso que  infelicidade da maioria dos indivíduos é justamente o desejo alucinando de querer provar e comprovar diante dos olhos do resto da humanidade inteira a sua anelada, porém falaciosa, felicidade. A regra proporcional por mim levantada é mais ou menos assim: Quanto mais desventurado se encontrar o sujeito, mais ele irá querer demonstrar a todos que o cercam  o quanto é/está ditoso.
As redes sociais se tornaram meio mais usado para mascarar  frustrações. No Facebook, por exemplo, todo mundo é afortunado,  amado, todo mundo tem uma vida perfeita. Mas nem precisa muita argúcia para se perceber que boa parte das pessoas que divulga suas vidas a cada trinta minutos - e estou sendo sutil nesse dado - está mentindo.
Fico me questionando o que leva uma pessoa a ficar bancando o"DJ da Rede", postando trilhas sonoras de corno durante toda a noite, incluindo noites de sextas-feiras (risos). Qual a razão que alguém pode ter para mostrar online e em tempo real a roupa que está experimentando no provador da loja de departamentos? Que necessidade de existir e de provar sua importância tem um sujeito que mostra a toda comunidade cibernética o prato a ser devorado por ele dalí a alguns instantes?
São pessoas machucadas, concluo. É tanta dor reprezada, tanto desprazer, que o transbordamento urge, uiva, grita!
 Os sentimentos opressivos são energias, ainda que, indubitavelmente, negativas, Estas torrentes precisam "desaguar", isto é, encontrar seu "escape" em algum lugar. Nada mais cômodo do que prostrar-se em frente a um computador e criar uma existência de faz-de-conta que dê conta de todos os sofrimentos não-resolvidos. Mas o mundo "inventado" por assim dizer, não existe/existiu ou existirá. A frustração só aumenta, o pus da alma fica mais perceptível. A mentira, nesse caso, existe para além de querer mostrar nossa bem-aventurança, ela é uma maneira de machucar quem nos observa. É como se disséssemos: Olha, como sou feliz e você não é! Igual fazem as crianças umas com as outras quando tem um brinquedo que as demais não possuem.
Só que com o objetivo de machucar aos outros, somos nós quem acabamos machucados. Quando o sono ou a tristeza nos vence e o logoff se aproxima, o que resta é unicamente um gosto acre na boca, silêncio e as luzes tristes do modem, provando que todo nosso mundinho depende exclusivamente de uma mísera tomada que liga, mas que também desliga a nossa existência. É assim que nos queremos??

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sim, eu sou tua amiga

Eu sou tua amiga A e tu nem o sabes.
Eu me preocupo com os teus sentimentos e sei que tua dores surgirão se é que já não existem. Eu sei de onde provém tuas chagas e poderia ser unguento para as tuas feridas, mas tu não me sabes, tu não o sabes, tu tão somente não sabes.
Conheço a tua intimidade, teus momentos de alegria já provei. Na verdade, eu já experimentei o que hoje és. Eu fui o teu "maintenant", mas tu não o sabes.
As tuas manhãs de ressaca, teus cigarros fumados inadvertida e passivamente - todos eles já traguei. O corpo que apalpas no teu cotidiano, aquele que pensas ser teu - este já foi meu - mas tu não o sabes, sequer sondas.
Os teus sonhos eu já sonhei, teus pesadelos eu já vivenciei e os sonos que dormirás eu já dormi. Teus finais de semana, teus passeios, tuas risadas em frente à televisão, por tudo isso já passei - Só tu não o sabes.
Eu não sou teu duplo, nem uma sombra tua, tão pouco tua moira.
Provavelmente tu nunca saberas quem eu sou e que existo aqui, igualzinha a ti.
Este texto não é reduplicação do teu id, é, pois, uma singela constatação de que todos nós em algum momento de nossas passagens por aqui, nos apropriamos (às vezes, injustamente, em outras não) da vida de outras pessoas e muitas delas nem imaginam que isso aconteça. Pessoas como tu, que nem o sabes.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Hoje encontrei esta raridadde no You Tube. Conheci tal música aos quatorze anos e, desde então, toda vez que tenho a oportunidade de tocar timidamente um violão, é ela que desajeitadamente executo. Esta melodia mora em mim.
Atenção: pois aos 3 mim e 48 seg que a música se faz sublime! Puro deleite!

terça-feira, 24 de abril de 2012

Journée

Ontem, sem querer, enquanto fazia meu serviço doméstico, rasguei a camiseta que você me deu. É mais um rasgo entre eu e você.
Fiz salada de maionese com maçã e lembrei de quando essa era nossa única refeição aos domingos. E relembrei entre uma colherada e outra, nossos finais de semana bolorentos, abostados em frente à televisão curtindo uma solidão que se fazia acompanhada. Limpei meu quarto e ao espanar minha penteadeira, dei com os brincos pingentes que você me presenteou de aniversário. Antes eu não tinha coragem de usá-los, mas agora que você rasgou em mim, já não sinto mais dor. Eu estou fora do problema.
Depois de vagar pela casa, entre uma atividade cotidiana e outra, escolhi a trilha sonora do meu banho
Demorei me ensaboando e escolhi que meu cheiro de segunda-feira seria o restinho do meu sabonete de menta. Já relaxada, folhei o livro que não me emociona, mas que por obrigação 'arrasto' na leitura. Quando peguei o telefone, ele tocou ao mesmo tempo. E era...
Bem, eu avisei que você me perderia. E perdeu.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Le facteur

L'amour ne peut plus voyager
Il a perdu son messager
 
Il est parti dans le ciel bleu
Comme un oiseau enfin libre et heureux


Il a emporté avec lui
Les derniers mots que je t'avais écrit


Je t'aime autant que je t'aimais
Mais je ne peux le dire désormais


Mon cœur est comme en prison


L'hiver a tué le printemps
Tout est fini pour nous deux maintenant

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Deu pena...

Pela primeira vez em muito tempo, consegui ter pena. Fiquei tão perplexa diante da vida e de seu desvairado rumo que ao final de minha constatação senti inquestionável e grande compaixão.
Quantos mal-entendidos, quanta comunicação truncada, quando sentido perdido!
Eu tive pena de mim e de você.
Senti vergonha da minha mesquinharia, do meu egoísmo e concomitante falta de altruísmo. Preciso me vigiar constantemente para ser generosa e esta é uma comprovação terrível a meu respeito. Eu simplesmente ignoro as fraquezas dos outros, fecho olhos e obstruo ouvidos diante da sensibilidade e fragilidade daqueles que me rodeiam. Como posso ser tão bruta, tão calcária!
Sei que pedidos de perdão além de falaciosos não apagam o que foi lapidado com dor e ressentimento, mas quem dera eu pudesse "consertar" o estrago que causei.
Talvez eu seja muito forte, talvez muito cruel ou quem sabe ainda insensível, quiçá tudo junto ao mesmo tempo.
Não é raro acontecer de me ocorrerem verdadeiras "revelações" acerca de questões passadas. Frequentemente quando eu tenho esses "insights", eles me chegam acompanhados de mais dor. Uma dor que vai além daquela que eu usualmente trago comigo, pois que esta surge resignificada.
Não transporto todas as injustiças dentro de mim - compreendo isso, não dirijo todos os pensamentos das mentes que mentificam comigo, mas também não consigo me eximir de certas responsabilidades.
É que eu vejo capacidade onde a maioria não vê. Escuto a linguagem cifrada do coração e do intelecto como uma composição praticamente inaudível aos ouvidos comuns. O erro principal em todo este processo, está em não levar em conta a dificuldade desta percepção refinada por parte de outrens.
No meu universo tudo é tautológico, tudo é redundante e sempre, sempre,sempre me esqueço o que disse certa vez uma grande amiga: "Cuidado, claridade demais também leva à cegueira!"
Nada do que me cerca é comum, pois eu sou profissional em fazer o luminoso tornar-se embruscado. Eu sou 'o embrusco'. As pessoas deveriam se aproximar de mim com setas fluorescentes, lanternas, lampiões de alma...por que eu embasso as percepções e acabo atrapalhando tudo, criando aflição, lástima.
Agora não adianta mais. Il est trop tard!
Lágrima e água agora tem o mesmo gosto. Não há como separá-las e ambas vertem em uma torrente infindável. Eu sinto pena! Tanta pena! Só pena!



domingo, 15 de abril de 2012

Confusões

As pessoas confundem amor com as mais variadas sensações. Elas admiram e julgam amar, elas tem culpa e pensam que amam, até mesmo odeiam e acreditam amar visceralmente. Aliás, desconfio demasiado de visceralidade e entranhamento quando se disserta sobre amor.
Mas quem quer de fato saber o que eu penso sobre isso ou aquilo?
Aqui eu escrevo quase sempre para mim, para que releia e talvez possa me entender em algum momento desta minha pífia existência.
Já fui desprezada quando me diziam que eu era alvo de amor, já fui humilhada quando tudo que esperava era o respeito que só o amor confere, já acreditei que era aceita, mas tudo o que existia na outra pessoa era remorso.
Nunca exigi exprobação, somente desejei ser AMADA.
Depois de quase quarenta anos de existência, conclui que amor é um sentimento muitíssimo raro. Ele é raro mesmo que seja de pai, mãe, irmãos e outros entes onde os laços nos semelham indefectíveis.
Gaiarsa tinha razão... Amor e ódio inúmeras vezes se fundem em um só sentimento. A associação entre um e outro é tão homogênea, que às vezes não há como perceber aquilo pelo qual somos/estamos embuídos.
Eu mesma fui marchetada de tantas maneiras. Em mim existem dores que frequentemente traduzem-se em sorriso.
Todas as noites quando adormeço, sonho com os corredores de uma das escolas em que estudei. Lá, onde sorri e fiz bons amigos, meu subconsciente libera toda a dor que guardei da época de criança. E meu peito explode em um pranto incontido. Vejo uma escola vazia, escura e meu choro faz eco. Estou sozinha e tudo que ouço é meu próprio lamento.
É a dor escondida na alegria, naquilo que houve de mais bonito em uma vida, e que também pode ser o mais aziago.

sábado, 14 de abril de 2012

Precisar sem querer

Quando estamos doentes precisamos de medicação, e se estamos adoecendo fazem-se necessárias 'medidas profiláticas', que é como a linguagem médica assim nomeia.
Já estive muito doente, e aos poucos e muito devagar mesmo, melhoro a cada instante. Entreanto, para que a cura seja plena, alguns cuidados devem ser observados atentamente. Geralmente, quando em estado moribundo, fazemos dietas alimentares rigorosas, deixamos de lado algumas atividades que mais nos dão prazer, e isso nos custa tanto não é verdade...Agora, sei que preciso ficar reestabelecida tanto orgânica como espiritualmente, então vou ter que partir. Não, eu não queria. Meu coração se ressente cada vez que me vem a certeza do deslocamento.
Verdade é que nem sempre aquilo que nos causa prazer, nos faz bem.
Amo meu Porto, meus amigos e as recordações que esta cidade me traz. Mas a tristeza que cada bairro, cada calçada e cada esquina como que aqui me impregnaram, causa uma asfixia de dor cá dentro.
Eu preciso ir e nem queria. Precisar definitivamente não é querer. Precisar e "ter de", precisar é falta de alternativas, precisar é mudança por contingência. Eu preciso.
E quando o ônibus atravessa a Av. Castelo Branco, sinto que já não posso mais permanecer por estas bandas um tempo mais. O Guaíba parece que reuniu todas as lágrimas que eu tenho, tanto as vertidas quanto as contidas. . Eu não queria, mas preciso, porque os motoristas apressados  me advertem que estou atrapalhando seu destino final. Eu interrompo o ritmo dos transeuntes nas ruas, eu escuto seus sotaques, já não estou mais em meu pedacinho de chão. Meu lar não é em lugar nenhum.
E quando o avião decola, eu deixo a dor gaúcha para trás com saudade e uma dor mundana  mais intensificada. E vejo a torre da Usina do Gasômetro se despedir de mim e ordenar do alto de seus tijolos que eu desapareça, tal como uivam entre ventos as árvores do Parque da Redenção.
Por que vocês não me querem mais? Por que até mesmo em meu lar urbano eu sou indesejada? Por que nem no que julguei ser "meu lugar" me adaptei?
Minha mãe não me quis e agora minha mãe maior também me manda embora. Eu queria ficar, mas preciso ir, porque precisar é mudança por contingência. O cosntrangimento que aqui causo não me deixa escolha.
E como diz o poeta: "Trago sozinho o verde do chimarrão, olho o cotidiano, sei que vou embora. Nunca mais, nunca mais..."

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Lundi

Foi uma segunda-feira cansativa. Muito estudo, articulação para estágio, revisão de cronograma, acordos, agendamentos, um saco! Menos mal que o clima era agradável com um ventinho saboroso soprando no rosto e me escabelando por completo, mas esse último nunca foi problema para mim.
Ainda assim, os chatos sempre existem e fazem questão de pontuar meu cotidiano com suas chatices, seja com um comentário parvo, seja com uma observação simplória. Acho que o estresse de final de curso tem me feito uma pessoa mais ranzinza do que habitualmente já o sou. Tenho me questionado frequentemente a respeito de minha intolerância. Pouca coisa ( na opinião dos que me cercam), já basta para me tirar do sério.
Saudades dos tempos em que era mais pacífica - e olha que não estou de TPM.
Ando muito insatisfeita comigo em se tratando de assuntos de aparência, me enxergo gorda, inadequada dentro das roupas que visto. Isso corrobora para que tudo me amole em demasia. A premissa é simples: se não estou bem comigo, não estou bem com o mundo. Mesmo que as pessoas afirmem o contrário, nada faz com que minhas crenças mocréiídicas (risos) se modifiquem. Eu tenho consciência dos meus exageros, mas também sei com absoluta especificidade de onde provém minhas frustrações. Frustrações estas que se fazem notar na balança, no humor, no amor e por aí segue...
Então, aliviando um pouco a tensão e a naba do dia que tive, deixo registrado o poema trabalhado na aula de hoje e que me trouxe epifânias deliciosas que valeram por todas as batalhas de lundi.

Le verbe être
André Breton

Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Le désespoir n'a pas d'ailes, il ne se tient pas nécessariement à une table dessevie sur un terrasse, le soir, au bord de la mer. C'est le désespoir et n'est pas le retour d'une quantité de petits faits comme des graines qui quittent à la nuit tombante un sillon pour un autre. Ce n'est pas la mousse sur une pierre ou le verre à boire. C'est un bateau criblé de neige; si vous voulez, comme les oiseaux qui tombent et leur sang n'a pas la moindre épaisseur. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Une collier des perles pour lequel on ne saurait trouver de fermoir et dont l'existence ne tient pas même à un fil, voilà le désespoir. Le reste nous n'en parlons pas.
Nous n'avons pas fini de désespérer si nous commençons. Moi je désespère l'abat-jour vers quatre heures, je désespère de l'eventail vers minuit, je désespère de la cigarette des condamnés. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes.
Le désespoir n'a pas de coeur, la main reste toujours au désespoir hors d'haleine, au désespoir dont les glaces ne nous disent jamais s'il est mort. Je vis de ce désespoir qui m'enchante. J'aime cette mouche bleue qui vole dans le ciel à l'heure où les étoiles chantonnent. Je connais dans ses grandes lignes le désespoir aux longs étonnements grêles, le désespoir de la fierté, le désespoir de la colère. Je me lève chaque jour comme tout le monde et je détents les bras sur un papier à fleurs, je ne me souviens de rien et c'est toujours avec désespoir que je découvre les beaux arbres déracinés de la nuit. L'air de la chambre est beau comme des baguettes de tambour. Il fait un temps de temps. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. C'est comme le vent du rideau qui tend la perche. A-t-on idée d'un désespoir pareil! Au feu! Ah ils vont encore venir...
Au cours! Les voici qui tombent dans l'escalier...Et les annonces de journal et les réclames lumineuses le long du canal. Tas de sable, va, espèce de tas de sable! Dans ses grandes lignes le désespoir n'a pas d'importance. C'est une corvée d'arbres qui va encore faire une foret, c'est une corvée d'étoiles qui va encore faire un jour de moins, c'est une corvée de jours de moins qui va encore faire ma vie.

domingo, 1 de abril de 2012

O direito ao foda-se - por Ivo Resende

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua.
“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?
No gênero do “Pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fodendo!”. O “Não, não e não”! E tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade ”Não, absolutamente não!” O substituem. O “Nem fodendo” é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.
Por sua vez, o “porra nenhuma!” atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porranenhuma”, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone” – presidente de porra nenhuma.
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-que-o-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba…Diante de uma notícia irritante qualquer um “puta-que-o-pariu!” dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no olho do seu cu!”. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Fodeu de vez!”. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? “Fodeu de vez!”.
Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do ”foda-se!”? O “foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.”. Não quer sair comigo? Então foda-se!”. “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!”.
O direito ao ”foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e FODA-SE !