sábado, 28 de março de 2015
"Trau keinem, der nicht traut."
O desconfiado não merece confiança. Quem desconfia de tudo e de todos, apenas projeta para fora de si as coisas tortas que ele próprio deixou crescer em sua mente. Mais apropriado é confiar nas pessoas até que tenham dado provas de não serem confiáveis.
terça-feira, 24 de março de 2015
Perspicácia
Inicio esse texto com uma constatação: Sou muito mais inteligente do que sondava ser. Ah!
Já posso antever os rostos contraindo-se em expressões que, vão do desprezo ao nojo total, mas no decorrer dessa prosa, duvido que não me deem um cadinho de razão.
Há muito tempo, vivo em um mundo paralelo,solitário, metáfora de uma bolha, onde só eu consigo e posso entrar. Desenvolvi o costume (nem tão estranho assim) de observar as pessoas e as atitudes que tomam. Faço isso permanentemente. Talvez, o lado curioso da história que vou lhes contar, seja eu observar com obsessão, todos aqueles que me interessam. E o caso se dá desde os meus seis ou sete anos de idade (não imagino muitas crianças tendo esses hábitos).
Pois bem, logo cedo em minha pueril existência, atinei com comportamentos duvidosos, interesseiros e em grande parte egoístas. Estes comportamentos provinham de pessoas muito próximas, tios, primos,pai e etc. Como criança de senso de lealdade e justiça aguçado, pus-me a advertir os que amava (e eram poucos), temendo vê-los sofrer. Eu fazia isso movida tão somente pelo amor.Cansei de ver, por exemplo, minha mãe passar as tardes de domingo chorando por ter sido machucada por as pessoas que ela mais amava. Inúmeras vezes, eu tentei avisá-la de que tais pessoas não eram dignas dos seus sentimentos. Mas o que acham que aconteceu? Obviamente, ela além de não me prestar a mínima atenção,ainda mandava que não interferisse no mundo dos adultos. Depois de inúmeras advertências,xingamentos, chineladas e puxões de orelha, abandonei meu intento.
Aprendi a me defender muito cedo. Nunca deixei que outras crianças abusassem de mim. Eu era astuta.ao menor gesto,punha-me de prontidão contra os ataques dos inimigos. Infelizmente, sempre foi assim que enxerguei a vida: Um campo minado passível de ataques iminentes.
Não perdi essa neurótica mania de observar os que admiro.E, cá de fora (ou cá de dentro de minha bolha), eu vejo tudo o que está acontecendo. Algumas vezes, as pessoas e suas reações são tão patentes que apenas aguardo o desfecho da história. Não gostaria de acertar repetidas vezes minhas previsões, não queria que as existências fossem tão axiomáticas, mas...para a maioria, desatenta dos outros e excessivamente voltada a si, a vida é mais misteriosa do que para mim.
Por certo que minha lucidez atrapalhou minha inocência. Deixei a infância cedo. Minha capacidade de entrega e de amor talvez tenha se reduzido, não sei... Pena! Lamento por mim, pois, além de certa secura de alma, meus olhos também foram lesados do brilho que só uma criança pode ter nos seus.
Durante o curto tempo em que me deixei levar pelo delírio de acreditar na pureza de sentimentos, raras vezes saí de tais experiências sem ferimentos graves. Não desisti da luta, mas mudei o direcionamento das minhas emoções.Elas nunca deixaram de existir,mas a forma como irrompem à realidade, é bem outra hoje em dia.
Aprendi uma lição valiosa, a de que a claridade excessiva também nos leva a cegueira. Então, o conselho é: Desconfie do que lhe parece seguro,desconfie do que surge fácil. Exija que a história tenha uma trajetória, não aceite atalhos. Atalhos empobrecem o caminho da vida e a plenitude que ela traz consigo. Viva por partes, não apresse as etapas, conserve o siso. Entretanto,quando precisar acelerar, acelere, e se precisar acalmar, acalme. A intuição é o coração falando disfarçado de bom-senso. Não desista, mas tenha cautela. O coração nunca se cala.
Já posso antever os rostos contraindo-se em expressões que, vão do desprezo ao nojo total, mas no decorrer dessa prosa, duvido que não me deem um cadinho de razão.
Há muito tempo, vivo em um mundo paralelo,solitário, metáfora de uma bolha, onde só eu consigo e posso entrar. Desenvolvi o costume (nem tão estranho assim) de observar as pessoas e as atitudes que tomam. Faço isso permanentemente. Talvez, o lado curioso da história que vou lhes contar, seja eu observar com obsessão, todos aqueles que me interessam. E o caso se dá desde os meus seis ou sete anos de idade (não imagino muitas crianças tendo esses hábitos).
Pois bem, logo cedo em minha pueril existência, atinei com comportamentos duvidosos, interesseiros e em grande parte egoístas. Estes comportamentos provinham de pessoas muito próximas, tios, primos,pai e etc. Como criança de senso de lealdade e justiça aguçado, pus-me a advertir os que amava (e eram poucos), temendo vê-los sofrer. Eu fazia isso movida tão somente pelo amor.Cansei de ver, por exemplo, minha mãe passar as tardes de domingo chorando por ter sido machucada por as pessoas que ela mais amava. Inúmeras vezes, eu tentei avisá-la de que tais pessoas não eram dignas dos seus sentimentos. Mas o que acham que aconteceu? Obviamente, ela além de não me prestar a mínima atenção,ainda mandava que não interferisse no mundo dos adultos. Depois de inúmeras advertências,xingamentos, chineladas e puxões de orelha, abandonei meu intento.
Aprendi a me defender muito cedo. Nunca deixei que outras crianças abusassem de mim. Eu era astuta.ao menor gesto,punha-me de prontidão contra os ataques dos inimigos. Infelizmente, sempre foi assim que enxerguei a vida: Um campo minado passível de ataques iminentes.
Não perdi essa neurótica mania de observar os que admiro.E, cá de fora (ou cá de dentro de minha bolha), eu vejo tudo o que está acontecendo. Algumas vezes, as pessoas e suas reações são tão patentes que apenas aguardo o desfecho da história. Não gostaria de acertar repetidas vezes minhas previsões, não queria que as existências fossem tão axiomáticas, mas...para a maioria, desatenta dos outros e excessivamente voltada a si, a vida é mais misteriosa do que para mim.
Por certo que minha lucidez atrapalhou minha inocência. Deixei a infância cedo. Minha capacidade de entrega e de amor talvez tenha se reduzido, não sei... Pena! Lamento por mim, pois, além de certa secura de alma, meus olhos também foram lesados do brilho que só uma criança pode ter nos seus.
Durante o curto tempo em que me deixei levar pelo delírio de acreditar na pureza de sentimentos, raras vezes saí de tais experiências sem ferimentos graves. Não desisti da luta, mas mudei o direcionamento das minhas emoções.Elas nunca deixaram de existir,mas a forma como irrompem à realidade, é bem outra hoje em dia.
Aprendi uma lição valiosa, a de que a claridade excessiva também nos leva a cegueira. Então, o conselho é: Desconfie do que lhe parece seguro,desconfie do que surge fácil. Exija que a história tenha uma trajetória, não aceite atalhos. Atalhos empobrecem o caminho da vida e a plenitude que ela traz consigo. Viva por partes, não apresse as etapas, conserve o siso. Entretanto,quando precisar acelerar, acelere, e se precisar acalmar, acalme. A intuição é o coração falando disfarçado de bom-senso. Não desista, mas tenha cautela. O coração nunca se cala.
segunda-feira, 23 de março de 2015
Santa Marta
Nos últimos tempos, uma avalanche de coisas negativas tem acontecido na minha vida. São aquelas fases em que a zica predomina e, por mais que você tente reverter a situação, não obtém êxito.
Todavia, sempre, ocorrem momentos sublimes na vida da gente. Pode ser uma mensagem de carinho pelo whatsapp, um e-mail com uma proposta nova de emprego, um sorriso lindo oferecido só pra você, um convite absolutamente inesperado para jantar.
Eu dou valor a esses tão pequeninos acontecimentos do cotidiano.
Outro dia, depois de dar uma aula gratificante, ao embarcar no ônibus me pus a pensar: Como pode a nossa vida mudar tanto, em tempo tão exíguo? Como,subitamente, pessoas entram e saem das nossas realidades? Como as prioridades se modificam praticamente à revelia dos nossos planos?
Nós arquitetamos a maioria dos atos e das atitudes que iremos/queremos tomar (pelo menos é o que pensamos e o que tentamos), entretanto, a impressão é de que estamos no centro de um redemoinho. O vento nos empurra em todas as direções. Não há o que fazer.
Mas vamos à história: Antes do "bouleversement"do dia mencionado, acordei repleta de melancolia, presa ao leito, igual atam os doentes mentais nos sanatórios. É meu fim, pensei. Não há razão para que me ponha de pé, para que trabalhe, para que respire.
Mas, Dona Marta estava em casa, e perto da hora de eu acordar,ela deu seus três toques costumeiros e delicados à porta. A pergunta foi a mesma de sempre: Não tá na tua hora, Daniela?
Pensei em mentir, dizer que a aula havia sido desmarcada, alegar indisposição. Porém, mentir é um gesto extremamente desconfortável para mim, ainda mais em se tratando de mentir para minha mãe.
Lá fui eu. Peguei minha toalha e me dirigi ao banheiro para fazer minhas higienes matinais. Não levei cinco minutos para compor o visual que usaria (era evidente meu entojo). O terceiro e último passo foi o da massada foi a maquiagem. Carreguei no uso do corretivo, pois as olheiras estavam profundas -,sequelas do choro da noite anterior - depois, tomei um café às pressas e saí.
Antes da aula propriamente dita. tratei dos assuntos burocráticos. Perto da hora do almoço, segui ao encontro do aluno que me aguardava, como de costume.
Os primeiros instantes da aula pareceram se arrastar. Creio que nem eu e nem ele estávamos muito dispostos, apesar de ser uma sexta-feira radiante de sol. Contudo, a conversa prosseguiu, tinha que prosseguir, afinal,eu estava sendo paga para aquilo.
Não sei precisar o momento exato em que nos deixamos levar por observações de ordem pessoal. Falamos do que pensávamos e da maneira como fomos culturalmente criados - algo muito diferente entre nós, diga-se de passagem.
Aos poucos,nossos olhos iluminaram-se, percebi a musculatura do jovem rosto, à minha frente relaxar. Sorrimos, rimos juntos da vida. Gracejamos do pitoresco de ser um estrangeiro tanto em nosso país,quanto em um país por nós desconhecido.
A alegria brinca de chicotinho-queimado com a gente. Quando pensamos que está tudo perdido, tudo gris, o dia se apresenta cheio de cores e luzes. Onde estava frio, subitamente, tornou-se quente.
E assim, o tempo da aula passou sem que sentíssemos, o restaurante esvaziou sem que percebêssemos, e o que era para ser só mais um diálogo permeado de regras gramaticais, mostrou-se ser um agradável encontro. Sem pretensões, nem segundas intenções.
E eu que havia erguido toneladas de mim para sair da cama, finalizei meu dia me sentindo leve como uma pluma.
Que bom que a vida tem sempre o poder de nos surpreender. Ainda que os problemas não desapareçam, há lenitivos no nosso trajeto. Eles nos impedem de desistir. Minha mãe é meu lenitivo maior e também meu liame com a vida real. Santa Marta!
Todavia, sempre, ocorrem momentos sublimes na vida da gente. Pode ser uma mensagem de carinho pelo whatsapp, um e-mail com uma proposta nova de emprego, um sorriso lindo oferecido só pra você, um convite absolutamente inesperado para jantar.
Eu dou valor a esses tão pequeninos acontecimentos do cotidiano.
Outro dia, depois de dar uma aula gratificante, ao embarcar no ônibus me pus a pensar: Como pode a nossa vida mudar tanto, em tempo tão exíguo? Como,subitamente, pessoas entram e saem das nossas realidades? Como as prioridades se modificam praticamente à revelia dos nossos planos?
Nós arquitetamos a maioria dos atos e das atitudes que iremos/queremos tomar (pelo menos é o que pensamos e o que tentamos), entretanto, a impressão é de que estamos no centro de um redemoinho. O vento nos empurra em todas as direções. Não há o que fazer.
Mas vamos à história: Antes do "bouleversement"do dia mencionado, acordei repleta de melancolia, presa ao leito, igual atam os doentes mentais nos sanatórios. É meu fim, pensei. Não há razão para que me ponha de pé, para que trabalhe, para que respire.
Mas, Dona Marta estava em casa, e perto da hora de eu acordar,ela deu seus três toques costumeiros e delicados à porta. A pergunta foi a mesma de sempre: Não tá na tua hora, Daniela?
Pensei em mentir, dizer que a aula havia sido desmarcada, alegar indisposição. Porém, mentir é um gesto extremamente desconfortável para mim, ainda mais em se tratando de mentir para minha mãe.
Lá fui eu. Peguei minha toalha e me dirigi ao banheiro para fazer minhas higienes matinais. Não levei cinco minutos para compor o visual que usaria (era evidente meu entojo). O terceiro e último passo foi o da massada foi a maquiagem. Carreguei no uso do corretivo, pois as olheiras estavam profundas -,sequelas do choro da noite anterior - depois, tomei um café às pressas e saí.
Antes da aula propriamente dita. tratei dos assuntos burocráticos. Perto da hora do almoço, segui ao encontro do aluno que me aguardava, como de costume.
Os primeiros instantes da aula pareceram se arrastar. Creio que nem eu e nem ele estávamos muito dispostos, apesar de ser uma sexta-feira radiante de sol. Contudo, a conversa prosseguiu, tinha que prosseguir, afinal,eu estava sendo paga para aquilo.
Não sei precisar o momento exato em que nos deixamos levar por observações de ordem pessoal. Falamos do que pensávamos e da maneira como fomos culturalmente criados - algo muito diferente entre nós, diga-se de passagem.
Aos poucos,nossos olhos iluminaram-se, percebi a musculatura do jovem rosto, à minha frente relaxar. Sorrimos, rimos juntos da vida. Gracejamos do pitoresco de ser um estrangeiro tanto em nosso país,quanto em um país por nós desconhecido.
A alegria brinca de chicotinho-queimado com a gente. Quando pensamos que está tudo perdido, tudo gris, o dia se apresenta cheio de cores e luzes. Onde estava frio, subitamente, tornou-se quente.
E assim, o tempo da aula passou sem que sentíssemos, o restaurante esvaziou sem que percebêssemos, e o que era para ser só mais um diálogo permeado de regras gramaticais, mostrou-se ser um agradável encontro. Sem pretensões, nem segundas intenções.
E eu que havia erguido toneladas de mim para sair da cama, finalizei meu dia me sentindo leve como uma pluma.
Que bom que a vida tem sempre o poder de nos surpreender. Ainda que os problemas não desapareçam, há lenitivos no nosso trajeto. Eles nos impedem de desistir. Minha mãe é meu lenitivo maior e também meu liame com a vida real. Santa Marta!
sexta-feira, 20 de março de 2015
Sendo usada
A gente sempre emprega a expressão "estou sendo usada" para choramingar alegando ingratidão. Mas será mesmo que é sempre assim? Será que ser usada não tem lá seus aspectos positivos a serem ponderados? Será que a malandragem de quem nos usou não serve de sirene para nossa alma?
Já faz algum tempo, eu vinha me arrastando pela vida. Definhava a olhos vistos. Falta de amigos, falta de criatividade, falta de amor. Escassez irrestrita e cruelmente real.
Creio que a última vez que me senti segura e contente comigo, eu deveria ter por volta de 22 anos. De lá pra cá foi só mutilação emocional. Um dia perdi o sorriso, no outro perdi o senso de humor, e em alguns anos perdi quase que completamente o amor por mim mesma. Finalmente, mergulhei no lodo da autocomiseração. Ali permaneci até bem pouco tempo atrás.
Um belo dia, em meio a um diálogo despretensioso (de minha parte), deixei a vergonha de lado e mostrei quem sou e o que penso. Detalhe: a conversa se deu com uma celebridade televisiva. E qual o resultado? Minhas ideias foram parafraseadas em rede nacional de rádio e tv. Ainda constatei na internet e nas mais diversas mídias sociais, minhas falas "bombado" e recebendo milhares de likes.
Meu primeiro sentimento seguiu a linha da pessoa com falta de autoestima. Agradeci e me senti honrada por ter meus ditos reduplicados - isso tudo sem minha devida autorização. No decorrer das horas, percebo que fui lograda. Abusaram de mim e tiraram proveito do meu discurso, fértil de indagações.
Mais tarde, começo a pensar diferente. Observo que sou capaz de produzir coisas muito boas. Através dos elogios, que a outra pessoa recebeu e que deveriam ser dirigidos a mim, entendo o quão nocivo foi o tempo que perdi. Tudo por medo e boa dose de orgulho.
Medo de me expor. Na verdade, um medo que escondeu todo o tempo um orgulho de não querer falhar. Simples assim, como uma continha de dois mais dois.
Sim,eu fui usada. Mas e daí? Quem mandou ser medrosa? Quem mandou ser parada? Quem mandou não arriscar? Pior que isso, quem mandou desistir sem não ter ao menos tentado?
O roubo de ideias é mais velho do que andar para frente, diria meu pai... Se eu tivesse um pouco mais de autoconfiança, não sairia por aí divulgando meus tesouros. Acontece que até ontem eu enxergava meu cofre como uma caixa de sapatos velha, onde guardava apenas badulaques.
Acreditava que só tinha quinquilharias dentro de mim. Precisei que um estranho assoprasse a poeira que se acumulou no meu íntimo, e assim houvesse espaço para que a alegria de ser quem sou reaparecesse.
É...eu fui usada, mas, talvez, deva agradecer. Não o mesmo tipo de agradecimento daquela pessoa que se vê por baixo e aceita o insulto como uma forma de reconhecimento. Devo agradecer por essa pessoa ter sido uma espécie de porta-voz minha. Bradou para o mundo meus pensamentos, materializou-os em um novo discurso, gritou no meu lugar. Teve a coragem que me faltou durante todos esses anos de silêncio.
Foi como se tivesse feito em mim respiração boca-a-boca. Eu estava me afogando, prestes a morrer, e fui salva pelo sopro de alguém que insistiu em me trazer de volta à vida. Só posso agradecer.
Nada mais será como antes. Eu nasci de novo.
Já faz algum tempo, eu vinha me arrastando pela vida. Definhava a olhos vistos. Falta de amigos, falta de criatividade, falta de amor. Escassez irrestrita e cruelmente real.
Creio que a última vez que me senti segura e contente comigo, eu deveria ter por volta de 22 anos. De lá pra cá foi só mutilação emocional. Um dia perdi o sorriso, no outro perdi o senso de humor, e em alguns anos perdi quase que completamente o amor por mim mesma. Finalmente, mergulhei no lodo da autocomiseração. Ali permaneci até bem pouco tempo atrás.
Um belo dia, em meio a um diálogo despretensioso (de minha parte), deixei a vergonha de lado e mostrei quem sou e o que penso. Detalhe: a conversa se deu com uma celebridade televisiva. E qual o resultado? Minhas ideias foram parafraseadas em rede nacional de rádio e tv. Ainda constatei na internet e nas mais diversas mídias sociais, minhas falas "bombado" e recebendo milhares de likes.
Meu primeiro sentimento seguiu a linha da pessoa com falta de autoestima. Agradeci e me senti honrada por ter meus ditos reduplicados - isso tudo sem minha devida autorização. No decorrer das horas, percebo que fui lograda. Abusaram de mim e tiraram proveito do meu discurso, fértil de indagações.
Mais tarde, começo a pensar diferente. Observo que sou capaz de produzir coisas muito boas. Através dos elogios, que a outra pessoa recebeu e que deveriam ser dirigidos a mim, entendo o quão nocivo foi o tempo que perdi. Tudo por medo e boa dose de orgulho.
Medo de me expor. Na verdade, um medo que escondeu todo o tempo um orgulho de não querer falhar. Simples assim, como uma continha de dois mais dois.
Sim,eu fui usada. Mas e daí? Quem mandou ser medrosa? Quem mandou ser parada? Quem mandou não arriscar? Pior que isso, quem mandou desistir sem não ter ao menos tentado?
O roubo de ideias é mais velho do que andar para frente, diria meu pai... Se eu tivesse um pouco mais de autoconfiança, não sairia por aí divulgando meus tesouros. Acontece que até ontem eu enxergava meu cofre como uma caixa de sapatos velha, onde guardava apenas badulaques.
Acreditava que só tinha quinquilharias dentro de mim. Precisei que um estranho assoprasse a poeira que se acumulou no meu íntimo, e assim houvesse espaço para que a alegria de ser quem sou reaparecesse.
É...eu fui usada, mas, talvez, deva agradecer. Não o mesmo tipo de agradecimento daquela pessoa que se vê por baixo e aceita o insulto como uma forma de reconhecimento. Devo agradecer por essa pessoa ter sido uma espécie de porta-voz minha. Bradou para o mundo meus pensamentos, materializou-os em um novo discurso, gritou no meu lugar. Teve a coragem que me faltou durante todos esses anos de silêncio.
Foi como se tivesse feito em mim respiração boca-a-boca. Eu estava me afogando, prestes a morrer, e fui salva pelo sopro de alguém que insistiu em me trazer de volta à vida. Só posso agradecer.
Nada mais será como antes. Eu nasci de novo.
Gentileza que não gera gentileza
E quando a gentileza não gera gentileza? E quando o esforço parece ser em vão?
Você planeja,prepara,apresenta e nem sequer é vista. Você se sente como um animadora de platéia, como uma boba-da-corte. Faz toda sorte de malabarismos - stricto e latu sensu - e o resultado é vazio.
Sua melhor roupa não faz diferença, e aquela sua franja cultivada no laqué, perfeita para um selfie, jamais será notada por quem você mais desejava que observasse. É a aridez afetiva, parcimônia de elogios. Quase dá para lembrar do dia em que a estiagem amorosa começou.
A vida é estranha. A gente pensa que essas são situações de folhetim, algo que não vai acontecer conosco. Não conseguimos acreditar que um ser humano possua tamanha crueldade, parece que a indiferença por nós sentida é um erro nosso de percepção.
O outro nos faz crer que nosso maior tesouro é nosso maior defeito. Mais curioso ainda é pensar que no início da relação, era exatamente essa suposta "intensidade" o que mais perfeita lhe tornava aos olhos dele.
Agora, entretanto, você parece uma caricatura do que foi. Tanto na visão dele,quanto na sua. Aos poucos foi murchando, empobrecendo seu espírito, sentindo-se minguar. Não houve a empatia suficiente para que notasse que existe sempre a necessidade de se regar a flor da alma. E mesmo tendo visto, ainda que só de vez em quando, ignorou, pois estava tranquilo em sua posição de ser amado.
Tornou-se robusto, cônscio de si. Seguro de seu tamanho e de suas atitudes. Tanta confiança trouxe a reboque incontestável rigidez. À medida que você aumentava a devoção, ele, de maneira inversamente proporcional, pisava no acelerador da presunção. E foi pisando cada vez mais fundo, confiando que o motor aguentaria o tranco. Não aguentou.
E então, depois de meses de ameaças, desconsiderações e demonstrações públicas de egoísmo, você desistiu. É isso mesmo,você jogou a toalha. Ficou pesado demais carregar vocês dois, um casal que só existia na sua cabeça.
Mas sua saída, como era de se prever, trouxe dores. Seguiram-se lágrimas, insônia, gastrite, cefaleias e outras tantas manifestações. Todo o nosso corpo chora, ao ter de se despedir daquilo que um dia acreditamos ser o que de melhor poderia ter nos acontecido.
Seguiu-se um enorme vácuo. Silêncio que nada tem de sublime ou poético. Mas seguiu também a vida. Dias e dias e dias que se amontoaram sem aparente valor ou sentido. De repente, sem qualquer forma de se precisar o exato momento, tudo mudou. Você deixou a letargia no passado, olhou no espelho e percebeu que o rubor, sinonímico da vida, voltou ao seu rosto. Você vestiu aquela mesma roupa que comprou para agradá-lo e não foi notada, só que agora, todos viram e elogiaram.
Novamente seu sorriso se abriu como rosa, não doi mais acordar pela manhã. Seu cabelo cresceu, e os cachos principiaram reaparecer. Você alisava-os para ele, mas agora quer que os cachos vicejem, pois não que não interessa mais esconder quem realmente é. Nem dos outros e nem de você. Logo, cria uma playlist com as músicas que havia deixado de ouvir, porque ele as deplorava. Aquela opinião já não importa mais.
A cura total chega no momento em que além do retorno da sua alegria, uma insondável indiferença quanto a ele acontece. Nada mais do que representava faz algum sentido, nem suas músicas, nem seus hobbies, nem suas opiniões, nada. Você não tem mais revolta no coração, não deseja que ele se dê mal ou bem, não deseja absolutamente nada. Acabou.
Foi uma grande experiência, uma jornada que seguiu todo um percurso,mas que agora, ficou esquecida em alguma gaveta da sua memória.
A melhor parte de tudo isso, talvez seja poder ter se reencontrado e agora tecer essas palavras como fecho de um ciclo. Bora lá, de novo!
Você planeja,prepara,apresenta e nem sequer é vista. Você se sente como um animadora de platéia, como uma boba-da-corte. Faz toda sorte de malabarismos - stricto e latu sensu - e o resultado é vazio.
Sua melhor roupa não faz diferença, e aquela sua franja cultivada no laqué, perfeita para um selfie, jamais será notada por quem você mais desejava que observasse. É a aridez afetiva, parcimônia de elogios. Quase dá para lembrar do dia em que a estiagem amorosa começou.
A vida é estranha. A gente pensa que essas são situações de folhetim, algo que não vai acontecer conosco. Não conseguimos acreditar que um ser humano possua tamanha crueldade, parece que a indiferença por nós sentida é um erro nosso de percepção.
O outro nos faz crer que nosso maior tesouro é nosso maior defeito. Mais curioso ainda é pensar que no início da relação, era exatamente essa suposta "intensidade" o que mais perfeita lhe tornava aos olhos dele.
Agora, entretanto, você parece uma caricatura do que foi. Tanto na visão dele,quanto na sua. Aos poucos foi murchando, empobrecendo seu espírito, sentindo-se minguar. Não houve a empatia suficiente para que notasse que existe sempre a necessidade de se regar a flor da alma. E mesmo tendo visto, ainda que só de vez em quando, ignorou, pois estava tranquilo em sua posição de ser amado.
Tornou-se robusto, cônscio de si. Seguro de seu tamanho e de suas atitudes. Tanta confiança trouxe a reboque incontestável rigidez. À medida que você aumentava a devoção, ele, de maneira inversamente proporcional, pisava no acelerador da presunção. E foi pisando cada vez mais fundo, confiando que o motor aguentaria o tranco. Não aguentou.
E então, depois de meses de ameaças, desconsiderações e demonstrações públicas de egoísmo, você desistiu. É isso mesmo,você jogou a toalha. Ficou pesado demais carregar vocês dois, um casal que só existia na sua cabeça.
Mas sua saída, como era de se prever, trouxe dores. Seguiram-se lágrimas, insônia, gastrite, cefaleias e outras tantas manifestações. Todo o nosso corpo chora, ao ter de se despedir daquilo que um dia acreditamos ser o que de melhor poderia ter nos acontecido.
Seguiu-se um enorme vácuo. Silêncio que nada tem de sublime ou poético. Mas seguiu também a vida. Dias e dias e dias que se amontoaram sem aparente valor ou sentido. De repente, sem qualquer forma de se precisar o exato momento, tudo mudou. Você deixou a letargia no passado, olhou no espelho e percebeu que o rubor, sinonímico da vida, voltou ao seu rosto. Você vestiu aquela mesma roupa que comprou para agradá-lo e não foi notada, só que agora, todos viram e elogiaram.
Novamente seu sorriso se abriu como rosa, não doi mais acordar pela manhã. Seu cabelo cresceu, e os cachos principiaram reaparecer. Você alisava-os para ele, mas agora quer que os cachos vicejem, pois não que não interessa mais esconder quem realmente é. Nem dos outros e nem de você. Logo, cria uma playlist com as músicas que havia deixado de ouvir, porque ele as deplorava. Aquela opinião já não importa mais.
A cura total chega no momento em que além do retorno da sua alegria, uma insondável indiferença quanto a ele acontece. Nada mais do que representava faz algum sentido, nem suas músicas, nem seus hobbies, nem suas opiniões, nada. Você não tem mais revolta no coração, não deseja que ele se dê mal ou bem, não deseja absolutamente nada. Acabou.
Foi uma grande experiência, uma jornada que seguiu todo um percurso,mas que agora, ficou esquecida em alguma gaveta da sua memória.
A melhor parte de tudo isso, talvez seja poder ter se reencontrado e agora tecer essas palavras como fecho de um ciclo. Bora lá, de novo!
quinta-feira, 19 de março de 2015
Frestas e rachaduras
Eu sempre preferirei as frestas do que as rachaduras.
Por causa das rachaduras, as paredes acabam caindo. Pelas rachaduras emocionais vazam partes de nós e de nossos sentimentos. Elas subtraem nosso lado bom.Uma rachadura sem conserto é como uma ruptura. Ela é excessivamente denotativa. denota quase sempre só perda. Rachaduras marcam tanto, que nenhum conserto consegue refazer com precisão o que foi desfeito.
Já as frestas podem mostrar além do que nossos empobrecidos olhares veem. As frestas denunciam, mas também trazem esperança. Pelas frestas entram os raios de sol, depois de uma noite tormentosa. A água (ou lágrima) que verte da rachadura e vaza, seca através da fresta, que traz calor e esperança, quando o tempo se acalma. É pela fresta que enxergamos a luz e sentimos a doçura do amanhecer.
Deixo a casa sempre aberta, mas se porventura tiver de fechá-la, deixo frestas para passagem de ar, e o sopro da vida.
Por causa das rachaduras, as paredes acabam caindo. Pelas rachaduras emocionais vazam partes de nós e de nossos sentimentos. Elas subtraem nosso lado bom.Uma rachadura sem conserto é como uma ruptura. Ela é excessivamente denotativa. denota quase sempre só perda. Rachaduras marcam tanto, que nenhum conserto consegue refazer com precisão o que foi desfeito.
Já as frestas podem mostrar além do que nossos empobrecidos olhares veem. As frestas denunciam, mas também trazem esperança. Pelas frestas entram os raios de sol, depois de uma noite tormentosa. A água (ou lágrima) que verte da rachadura e vaza, seca através da fresta, que traz calor e esperança, quando o tempo se acalma. É pela fresta que enxergamos a luz e sentimos a doçura do amanhecer.
Deixo a casa sempre aberta, mas se porventura tiver de fechá-la, deixo frestas para passagem de ar, e o sopro da vida.
Abri minhas defesas
Cedi. Estou doente. Emagreci.
Perdi o sono para não perder a dignidade. Calei minhas palavras para ti.
Somam-se os dias e minhas patologias. Ontem eram dores de cabeça, hoje cólicas,amanhã, quem saberá?
Meu corpo sente e se ressente da tua falta. Releio tuas mensagens,não consigo acreditar!
Minhas doenças não são figuras de linguagem, aqui colocadas para enfatizarem o que digo. Eu realmente adoeci. Tenho tido sangramentos repentinos, dores lancinantes. Intuo que provenham da tua ausência, da tua rejeição, da rejeição "dele" - daquele que negou-se a estar conosco.
Todos os meses as mulheres sangram. Eu sangrava duas vezes. Para fora e para dentro. Ele não vinha e eu te sentia ir embora junto, devagarinho.
Eu queria, tentava, mimetizava sintomas, mas ao fim, só restava a decepção. Não consegui. Eu quis, mas não consegui.
Não tens ideia de como me doi ter te decepcionado. Não sondas como me doeu te fazer doer. Eu nunca quis te fazer doer.
Creio que agora a tua dor e a minha devam ter se encontrado em meu corpo, tamanha é a avalanche de sintomas.
No fundo, bem lá no fundo, eu sabia que "ele" era só uma desculpa. Um desespero,uma ânsia em te levar a me amar. Não consegui, eu quis, mas não consegui.
As dores são uma espécie de medo também. Elas antecipam considerável masoquismo de minha parte. Eu temo que uma outra te dê o que eu fui incapaz de dar. Eu temo o dia em que as fotos de um desfecho feliz, serão publicadas na rede mundial. Eu estremeço diante da possibilidade da dor de ser espectadora da tua felicidade. Não que eu não queira te ver alegre e nem que não deseje tua felicidade. Eu apenas não queria sentir a dor sufocante da incapacidade. Incapacidade de ser amada, incapacidade de fazer a vida vingar, incapacidade de ser melhor. Ser melhor do que sou para que tu pudesses ser um ser humano melhor também. Crescer e ver teu crescimento. Resumo do meu contentamento. Algo que jamais existiu.
Perdi o sono para não perder a dignidade. Calei minhas palavras para ti.
Somam-se os dias e minhas patologias. Ontem eram dores de cabeça, hoje cólicas,amanhã, quem saberá?
Meu corpo sente e se ressente da tua falta. Releio tuas mensagens,não consigo acreditar!
Minhas doenças não são figuras de linguagem, aqui colocadas para enfatizarem o que digo. Eu realmente adoeci. Tenho tido sangramentos repentinos, dores lancinantes. Intuo que provenham da tua ausência, da tua rejeição, da rejeição "dele" - daquele que negou-se a estar conosco.
Todos os meses as mulheres sangram. Eu sangrava duas vezes. Para fora e para dentro. Ele não vinha e eu te sentia ir embora junto, devagarinho.
Eu queria, tentava, mimetizava sintomas, mas ao fim, só restava a decepção. Não consegui. Eu quis, mas não consegui.
Não tens ideia de como me doi ter te decepcionado. Não sondas como me doeu te fazer doer. Eu nunca quis te fazer doer.
Creio que agora a tua dor e a minha devam ter se encontrado em meu corpo, tamanha é a avalanche de sintomas.
No fundo, bem lá no fundo, eu sabia que "ele" era só uma desculpa. Um desespero,uma ânsia em te levar a me amar. Não consegui, eu quis, mas não consegui.
As dores são uma espécie de medo também. Elas antecipam considerável masoquismo de minha parte. Eu temo que uma outra te dê o que eu fui incapaz de dar. Eu temo o dia em que as fotos de um desfecho feliz, serão publicadas na rede mundial. Eu estremeço diante da possibilidade da dor de ser espectadora da tua felicidade. Não que eu não queira te ver alegre e nem que não deseje tua felicidade. Eu apenas não queria sentir a dor sufocante da incapacidade. Incapacidade de ser amada, incapacidade de fazer a vida vingar, incapacidade de ser melhor. Ser melhor do que sou para que tu pudesses ser um ser humano melhor também. Crescer e ver teu crescimento. Resumo do meu contentamento. Algo que jamais existiu.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Eu te dedico este texto
Dia desses sonhei que acariciava tua
cabeça. Fazia cafuné em teus cabelos, numa singela demonstração de quanto ainda
te amo. Quando acordei, um vento varreu os sentimentos gostosos do sonho. Em um
instante retornei ao espaço cheio de dor que se tornou meu coração desde que tu
te foste.
Sinto-me amarrada. Nada posso fazer
para modificar o que aconteceu. Tu decidiste por nós. Apesar do amor ainda
estar cá dentro de mim, não há razão para que subsista. É uma energia sem
direção.
Eu me lembro de ti todos os dias. E
toda vez que me ocorre uma lembrança tua, também tenho a certeza de que, da tua
parte, não há qualquer tipo de saudade ou lembrança de mim. Certamente, essa é
a parte mais sofrida da nossa ruptura. Ela doeu e doi apenas e tão somente em
mim. Eu te acompanho nas redes sociais, eu analiso cada frase, cada foto
publicada. Nelas procuro obsessivamente por algum tipo de sofrimento teu,
advindo da minha ausência. Entretanto, só o que vejo é um homem feliz e obtendo
êxito nos mais variados planos de sua vida. Não fiz nem faço falta. Pior. Nunca
fiz ou farei diferença.
De tudo que nosso relacionamento me
ensinou, creio que a lição mais cara seja a de que jamais devo esquecer-me dos
meus sonhos em detrimento dos sonhos de outro alguém. Jamais devo esquecer-me
de quem sou.
Há alguns anos, eu era uma pessoa
bem mais querida do que hoje sou. Em meus tempos de universitária, meus amigos
sempre solicitavam minha presença em seus círculos. Despertei paixões que,
infelizmente, não pude corresponder. Por certo fui amada, pois até homenagens e
discursos recebi. Livros com dedicatórias sublimes, passeios memoráveis.
Inúmeras foram as provas, de que fui importante para algumas pessoas, que
cruzaram meu caminho.
Para ti, eu não fui relevante. Logo
para ti, que tanto bem eu quis.
A vida é mesmo muito complexa. Não é
um cálculo exato, um filme com fim já anunciado. Na maior parte das vezes, nem
mesmo nossa intuição nos salva.
Eu planejei um zilhão de coisas
contigo. Férias, casa, móveis novos, filhos, velhice. Não obtive sucesso nem
com um plano de simples dias de descanso no nosso empobrecido litoral. Nada.
Passei dias de calor dentro de um
quarto sem janela, chorando por jamais ter conseguido conquistar efetivamente
teu coração.
Hoje, a dor não é tão pungente. Meu
trabalho, meus pais e meus gatos são meus placebos. É vida que segue... Tem de
seguir.
Deixo aqui registrado apenas que,
jamais, em nenhum momento da minha vida contigo eu te desejei mal. Muito antes
pelo contrário. Tudo o que quis e continuo querendo é que sejas feliz, pois te
amo e quem ama, deixa livre, mesmo que isso traga a dor. Amar também é doer. Eu
me resigno.
Eu te dedico este texto...
Queria que um dia você pudesse
lê-lo. Queria que o sol penetrasse em tuas retinas e que tu sentisses o calor do
meu abraço.
Queria poder te consolar nos
momentos difíceis e te mostrar um monte de coisas maravilhosas que existe mundo
afora.
Eu queria te ensinar sobre
generosidade, empatia e altruísmo. Desejaria apresentar tudo o que te rodeia,
através dos meus olhos. Sob a minha perspectiva, tu entenderias muitas coisas da
vida, assim, tu poderias julgar e escolher o que te fosse melhor.
Tinha o sonho de poder planejar-te
apenas coisas boas. Livrar-te dos momentos ruins e ver um universo de
possibilidades descortinar-se para ti.
Eu queria te amar com todo o vigor
que meu coração possui, mas fica tudo deveras sem sentido, por saber que tu jamais
estarás comigo.
Eu queria que teu sorriso se abrisse pelo simples motivo da minha presença. Meu maior anseio
era poder fazer de ti uma pessoa feliz, robusta de sentimentos bons.
Eu queria te carregar e te ter
comigo por todo o tempo do mundo.
Eu queria, mas a vida não quis.
O amor sempre existirá, ainda que tu
não existas, meu filho.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
A história de Kafka e a menina que perdeu sua boneca em Berlim, segundo May Benatar:
“Franz Kafka, conta a história, certa vez encontrou uma menininha no parque onde ele caminhava diariamente. Ela estava chorando. Tinha perdido sua boneca e estava desolada. Kafka ofereceu ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar. Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. “Por favor, não se lamente por mim, parti numa viagem para ver o mundo. Escreveu para você das minhas aventuras”. Esse foi o início de muitas cartas. Quando ele e a garotinha se encontravam ele lia essas cartas compostas cuidadosamente com as aventuras imaginadas da amada boneca. A garotinha se confortava. Quando os encontros chegaram ao fim, Kafka presenteou a menina com uma boneca. Ela era obviamente diferente da boneca original. Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”. Muitos anos depois, a garota agora crescida encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta. Em resumo, dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.
~ May Benatar, no artigo “Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss” (publicado no Huffington Post)
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
O prendedor verde
Naquela tarde de outono,
ele brilhava ainda mais preso à minha franja ruiva. Minha felicidade era
completa apenas pelo prendedor verde enfeitar minhas madeixas. Ele era feito de
lantejoulas gigantes que ofuscavam e enchiam de alegria meus inocentes olhos
infantis. O ônibus chacoalhava, e eu escutava ao longe a música que tocava no
pequeno rádio junto ao cobrador. Tudo era precário. Nossa pobreza era aparente.
Morávamos distante do centro da cidade. Não tínhamos carro ou casa própria.
Em alguns trechos do
trajeto, a poeira impedia que se visse por onde passávamos. Mas eu era feliz.
Apesar da sujeira, da penúria das roupas, da falta conforto. Eu era feliz. Não
conhecia ainda a deprimência da vida. A aridez de quem sabe mais do que
deveria. Mais do que é verdadeiramente preciso pra ser feliz. A alegria se
resumia ao sol, refletindo o brilho do prendedor verde nos meus cabelos.
Nossa casa era de
madeira de qualidade inferior - Verde - essa sempre foi a cor de predileção de
minha mãe. Os nós da madeira de pinho caíam e criavam furos nas paredes, que meu pai tapava com pedaços de papelão. Eu achava os buracos divertidos, pois
permitiam que eu observasse meus pais quando eles estavam distraídos nos
afazeres domésticos.
Os finais de semana eram diferenciados. Meu
pai levava o lixo para queimar, já que naquela época não havia coleta no bairro
em que morávamos. Íamos caminhando até a beira do valo. Meu pai tomava a
garrafa com álcool e ateava fogo aos entulhos por nós produzidos. Nem suspeitava
da penúria desse gesto. Era só o lixo, pensava.
Foi nessa época que eu
ganhei o prendedor verde. Você nunca poderá entender o que ele significou na
minha vidinha.
No dia em que o ganhei, acordei cedinho. Minha mãe me banhou em uma bacia de alumínio,
pois o chuveiro ficava distante, fora da casa em que morávamos. Era arriscado
tomar um ar gelado e me resfriar. Então o banho foi na cozinha mesmo, dentro da
bacia gigante. Lembro-me de me divertir
com o vapor da água quentinha.
Estava toda animada.
Iríamos sair, compraríamos um presente para minha mãe. Só eu e meu pai. Minha
mãe me arrumou. Faceira, peguei na mão de meu pai e fui. Fui passear. Fui
escolher a blusa mais bonita da loja para dar à minha mãe. E assim foi. Compramos a blusa de lã verde
que eu mesma escolhi. As vendedoras me elogiavam. Diziam que eu era uma menina esperta. Eu
acreditava nos elogios. Eu era feliz.
Estava indo para a fila do pagamento com meu
pai, quando passei por um balcão e fui atraída pelo brilho que emanava do
prendedor verde. Lá estava ele, fulgurante. Desejei ardentemente que ele reluzisse
na minha cabeça. Meu pai não hesitou em me conceder esse desejo. Ele me presenteou
com a peça. Meu pai sempre soube fazer crianças felizes. Também soube como
ninguém,colaborar para me tornar uma adulta infeliz.
Eu o trouxe
embrulhadinho em um saco de papel branco. Em casa, me desfiz dos preços e
pacotes e o grudei nos meus ralos cabelos ruivos. E como fiquei feliz! Isso
você nunca entenderá. A felicidade que advém da falta de oportunidades, aquela
que transforma pequenos acontecimentos em grandes eventos. A felicidade de com
tão pouco ser tão feliz!
Não, eu não viajei à
Europa. Não vesti roupas de grife. Não frequentei clubes sofisticados. Mas por
favor, não desmereça na minha felicidade, pois ela de fato existiu. Apesar da
pobreza, apesar das desfavoráveis circunstâncias. Meu prendedor de lantejoulas
verdes reluziu e refletiu um sorriso repleto de contentamento. Minha alegria foi ingênua.A felicidade me visitou, poucas vezes, é verdade. Entretanto, deixou luminosas saudades enfeitadas pelas recordações do prendedor verde.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
o espetáculo da dor alheia
Dias atrás, li uma matéria na internet, que narrava o caso de um urso em estado depressivo.O zoológico argentino que o abriga, nega-se a dar-lhe outro destino, algo que o anime e posteriormente o tire da melancolia em que se encontra. Insistem em tê-lo como atração, fazem da sua dor o espetáculo.
Fiquei pensando em como as dores são exploradas inescrupulosamente e na mesma medida servem ao lucro e entretenimento de outréns.
Quantos artistas agonizando por aí, pedindo socorro em suas canções, em suas telas, suas páginas. Quem se importa!? É glamouroso sofrer, é vantajoso doer.
O urso é só mais um que teve o infortúnio de existir em um mundo repleto de individualistas que fogem das suas dores explorando as dos outros.
Deixo apenas uma reflexão.
Qual a diferença, afinal??!!
Fiquei pensando em como as dores são exploradas inescrupulosamente e na mesma medida servem ao lucro e entretenimento de outréns.
Quantos artistas agonizando por aí, pedindo socorro em suas canções, em suas telas, suas páginas. Quem se importa!? É glamouroso sofrer, é vantajoso doer.
O urso é só mais um que teve o infortúnio de existir em um mundo repleto de individualistas que fogem das suas dores explorando as dos outros.
Deixo apenas uma reflexão.
Qual a diferença, afinal??!!
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